Opinião de Rute Costa
Também incluído no FEPIANO 40, publicado em Março de 2020
Em pleno século XXI, apesar de ser esperado que todas as economias modernas tenham um sistema financeiro desenvolvido, ainda existem cidadãos que preferem guardar as suas poupanças “debaixo do colchão”. A própria Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) aconselha a fazer isso mesmo, ao concluir que fazer certas aplicações nos bancos em Portugal “significa perder dinheiro”, porque o que é cobrado em comissões e despesas de manutenção ultrapassa os juros que o cliente irá receber.
Não podemos esquecer os casos de má gestão financeira dos bancos portugueses, que vieram ao de cima com a crise e resultaram em milhares de lesados com razões para desconfiar dos conselhos ouvidos ao balcão. Há ou não razões para esta desconfiança em torno do sistema financeiro? Quando até a administração do BES reiterou as conclusões da auditoria da Deloitte, afirmando que terá existido “uma gestão ruinosa em detrimento dos depositantes, investidores e demais credores”?
Porque é que isto acontece? As instituições financeiras são empresas que se regem pelas leis do mercado, o que significa que o seu objetivo principal é a maximização os seus lucros. Nesta perspetiva, foram evidentes, recentemente, os abusos na comercialização de produtos financeiros, pois os interesses dos clientes passaram para segundo plano, quando comparados com as prioridades comerciais. A isto acresce a situação dos bancos, que sofreram as consequências da crise e só agora começaram a recuperar do embate. Têm ainda um longo caminho pela frente, a começar pelo elevado valor do crédito malparado, que deve ser alvo de reflexão por parte de todos.
Em Portugal, assistimos a uma literacia financeira de 22%, segundo um ranking elaborado pela McGraw Hill Financial (MHFI). Esta falta de conhecimento impede os clientes de formular as perguntas certas e fá-los confiar cegamente nas pessoas que deveriam “perceber do assunto”. Neste sentido, nada pode ser escondido, de forma a que exista um maior cuidado no momento de investir.
Mais importante é perceber o que correu mal na regulação do sistema financeiro, cuja uma das principais prioridades é a proteção dos consumidores. Em 2018, foram discutidas no parlamento novas regras que visavam aumentar a capacidade de atuação das autoridades de supervisão do sistema financeiro, de forma a impedir comportamentos abusivos por partes das suas instituições. O perfil dos clientes deve ser alvo de análise por parte dos bancos, adequando as aplicações financeiras aos seus objetivos e à sua disposição para assumir riscos. Esperamos que estas medidas apresentem resultados.
A Grande Depressão teve base na especulação e na desconfiança no sistema financeiro. Quando a “bolha” de especulação em que estava mergulhado o mercado financeiro americano rebentou e as poupanças e os investimentos realizados se perderam, os aforradores e investidores culparam os bancos e correram a levantar o que conseguiram. Ora, um banco não sobrevive sem clientes. Queremos que a situação seja tão grave na próxima crise?
Como mencionou o Presidente da República, nenhuma economia garante crescimento se não existirem meios que o financiem, o que depende do sistema financeiro. Por isso, estabilizar o sistema financeiro é uma “prioridade nacional”, para além do reforço da sua regulação.

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