Na escrita, sempre fui assolada pelo medo de não atingir o perfeito. Este sentimento foi apenas crescendo com o passar do tempo e transformou-se em procrastinação, em adiar o inevitável, deixando a pressão tomar conta.  A racionalidade serviu de impedimento criativo, provocando o medo de sequer tentar. Esta constatação foi partilhada por diversos artistas, o que mais tarde veio dar origem a um movimento que privilegiava a união do lado consciente e inconsciente de cada um, a junção da fantasia e o sonho com o mundo palpável: o surrealismo.

André Breton (1896-1966), autor do Manifesto do Surrealismo” (1924), via o inconsciente como sendo a fonte da imaginação, sendo os surrealistas caracterizados por privilegiarem o espaço onírico em vez da realidade. Ao construir este movimento inspirou-se altamente na psicanálise de Sigmund Freud. 

O surrealismo floresceu na europa entre a primeira e a segunda guerra mundial, que ao contrário do seu predecessor, o dadaísmo (movimento focado na produção de trabalhos de anti-art que desafiavam a lógica), não se focava na negação da arte, mas nos aspetos positivos da criação artística. A rejeição do racional era motivada pela crença dos seus membros de que esta tinha provocado uma destruição que afetava toda a cultura e política europeia, culminando nos horrores da primeira guerra mundial, vendo a salvação da arte na inconsciência.

Quando tive o meu primeiro contacto com o surrealismo fiquei logo encantada por esta filosofia potencializadora de inovação. Em que os seus membros, no ato de criar, estariam desprendidos destas amarras da vida, da constante assombração de tentar atingir a perfeição, deixando a sua mensagem criar-se, de certa forma, por si só, proporcionando o ambiente ideal para esta se desenvolver.

Contudo não foi nos grandes nomes que encontrei entendimento e curiosidade, mas sim em Claude Cahun, alguém que, através das suas obras, desafiou todas as normas de género numa altura que era inconcebível tais discussões.

Cahun, nome artístico de Lucy Renee Mathilde Schwob, após a segunda guerra mundial, foi esquecida por bastante tempo. Foi apenas com a morte da sua colaboradora e parceira de vida Marcel Moore (Suzanne Alberte Malherbe), e com a publicação em 1992 da sua biografia por François Leperlier que esta voltou a entrar para a história da arte.

Para Cahun, uma realidade ou um único meio não bastavam, tendo-se expressado através da escrita, fotomontagens, escultura, fotografia e performance. Desde a infância até à sua morte, tratou a vida e a arte como terreno para a expressão, como escreveu na sua obra Aveux non avenus: “A abstração e o sonho são, para mim, tão limitados quanto o concreto e o real”. Quando colaborou com André Breton no movimento antifascista Contre Attaque, este referiu-se à artista como sendo “um dos espíritos mais curiosos do nosso tempo”, sendo conhecida por ter sempre desafiado os limites, adaptando-se à mudança, e ainda a circunstâncias perigosas.

Das suas obras, o que permanece principalmente são os seus característicos autorretratos. Através dos diferentes símbolos de fantasia, como as máscaras, bonecas e adereços, expressava a sua ambiguidade de género, conjugando elementos associados tanto ao feminino como ao masculino, transformando situações simples, como um autorretrato, numa mensagem muito mais profunda. No retrato mais conhecido deparamos-nos com uma simples pose enquanto encara a câmera com corações nas suas bochechas, cabelo curto, um halter no seu colo, também este decorado, e uma mensagem que se lê“I am in training don’t kiss me”. Este exemplo representa o modo como a artista reinventou o conceito de self, recriando um ser com identidade própria, revestida com trajes masculinos e femininos, desafiando qualquer norma da altura.

Em todo o seu trabalho, procurou transmitir uma sensação íntima, poética e autobiográfica através de uma abordagem inovadora. Para além disso, para trazer estas ideias à vida produziu em constante colaboração com Marcel Moore, tornando a criação artística, que é caracterizada por ser um processo individual, em algo coletivo.

Por fim, escolheu não prender o seu self numa mídia. Explorou, assim, cada parte do seu ser, levantando constantemente novas máscaras: “Sob esta máscara, outra máscara. Nunca terminarei de levantar todas estas faces.” (Claude Cahun, Aveux non avenus). Com o seu trabalho convida-nos a olhar para algo absolutamente pessoal ao mesmo tempo que nos desafia a tentar fazer o mesmo connosco. Assim, este movimento, ensina-nos sobretudo a não nos prendermos pela razão, deixando o íntimo tomar as rédeas