Opinião de Rosa Margarida Costa
Também incluído no FEPIANO 38, publicado em Outubro de 2019
Variações, um filme de João Maia, narra a história de um barbeiro que apenas queria concretizar um sonho: ser cantor; numa época em que havia ainda pouco rock em Portugal. A película, que conta com um elenco de excelência, chega aos cinemas portugueses 35 anos após a sua “morte”.
A ideia de fazer um filme sobre a vida de um dos maiores ícones da música portuguesa há muito que pairava na cabeça do realizador e argumentista. O filme, que esteve para entrar em produção no final de 2008, acabou por só ser produzido no verão passado, devido a vários entraves burocráticos e problemas de financiamento, permitindo, arrisco-me mesmo a dizer, uma maturação essencial para a própria construção das personagens.
O enredo do filme centra-se sobretudo entre 1977 e 1981, em valências por vezes pouco conhecidas pelo público. O argumentista acostuma-nos a várias analepses e prolepses, percorrendo ainda a infância de António, sempre acompanhada pela voz de Amália Rodrigues. A perseguição do sonho, a homossexualidade, a integração na noite lisboeta e a SIDA são temas explorados em profundidade, mas, ao mesmo tempo, com uma certa delicadeza, o que acaba por não desenvolver aquele cliché romântico a que tantas vezes o cinema nos habitua. A ideia pouco estruturada de que Variações era “desnorteado” é completamente desmitificada no filme, mostrando-nos um homem regrado, que, por exemplo, não fumava nem bebia.
Sérgio Praia, que interpreta António Variações, tem mais em comum com a personagem do que a mera aparência física, ainda que bastante caracterizada: são ambos apaixonados pelo fado e por Amália e saíram das suas aldeias do norte de Portugal em busca de um sonho, o primeiro ser ator e o segundo ser cantor. É o próprio ator que interpreta as canções no filme, conferindo-lhes um toque especial. Honra claramente a memória do cantor, não se limitando a fazer uma mera imitação, mas a transparecer a sua simplicidade dentro da excentricidade característica de Variações.
O filme é rodado em vários espaços lisboetas, como a discoteca Trumps, onde apresentara ao público, pela primeira vez, a “Canção do Engate”; o prédio onde morara e ainda o restaurante Bota Alta, onde reencontrara os amigos após o seu regresso de Amesterdão. Todos estes lugares conferem uma maior autenticidade ao projeto, uma vez que foram adaptados ao registo da época. A aldeia de Fiscal, Amares, onde o barbeiro minhoto cresceu, é também palco de algumas cenas emocionantes. A caracterização esplêndida do protagonista, bem como de todos os personagens e figurinos, dotados de um guarda-roupa de cores variadas e padrões extravagantes, permite-nos uma completa imersão no quotidiano das décadas de 70 e 80.
Esta obra, inspirada na história verídica de António Ribeiro, ainda que diluída na ficção, levou mais de 12 000 pessoas à sua estreia, um número superior ao que qualquer outro filme de produção portuguesa estreado este ano tinha atingido. Disponível em Dolby Atmos, proporciona ao espectador uma grande imersividade sonora. De tão poderosa que se tornou esta homenagem, foi prometida ao público uma tournée pelo país durante os próximos tempos, tendo as músicas reinterpretadas chegado, inclusivamente, à edição deste ano do NOS Alive.


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