As Repúblicas Socialistas Soviéticas da Ucrânia e da Bielorrússia foram, em 1922, umas das fundadoras da União Soviética e ao longo dos séculos viram o seu território ser disputado por duas faces de um mesmo continente: a ocidental e a soviética.

Num contexto relativamente recente, estes territórios foram contestados pela Polónia, pela Alemanha, pela Federação Russa, entre outras nações europeias; resultando numa cultura dividida entre dois mundos que ainda hoje são vistos como antagónicos. Mas qual das faces prevalece?

O comunismo soviético passou por diversas fases ao longo dos seus 69 anos de existência. O totalitarismo de Stalin, a título de exemplo, afastou-se crucialmente dos ideais defendidos por Lenin ou Karl Marx.

A atual Ucrânia foi definitivamente uma das comunidades que mais sofreu sob a liderança de Stalin e a imposição de medidas de coletivização agrícola. Entre 1932 e 1933 estima-se que cerca de 4 a 14 milhões de pessoas tenham morrido vítimas de fome e de trabalho forçado. Este crime contra a humanidade foi intitulado de Holodomor (“morte por fome”), também conhecido como Grande Fome ou Holocausto Ucraniano.

Tamanho sofrimento levou a que o movimento nacionalista ucraniano ganhasse força desde muito cedo, o que se materializou numa guerra pela independência do país entre 1917 e 1921 e no reconhecimento por parte dos países ocidentais do estatudo de independente face à União Soviética (ainda que por um breve período de tempo). O estatuto de independência só foi alcançado em 1991 com a dissolução da mesma.

Esta dissolução poderia marcar o fim da era soviética, porém, os mesmos países que se uniram para tal acordo prontamente criaram a Comunidade dos Estados Independentes, formando uma ligação forte, ainda que aparentemente invisível, entre si. No entanto, a Ucrânia e a Bielorrússia começaram a divergir.

Desde o início do século XXI, grande parte da população ucraniana defende uma maior integração na União Europeia (UE) No entanto, o presidente Viktor Yanukovytch pôs fim às negociações com a UE a favor de Moscovo, o que conduziu às manifestações do Euromaidan e consecutivamente a um golpe de Estado que o destituiu do poder e levou à anexação da Crimeia e de Sebastopol pela Rússia (apoiante do ex-presidente). Na sequência destes acontecimentos, a Ucrânia abandonou a Comunidade dos Estados Independentes. Parece que a face ocidental do país prevaleceu.

Já no caso da Bielorrússia, a face soviética parece ser a predileta, permanecendo intacta a sua relação com a Rússia sob a presidência de Alexander Lukashenko. Muitos países ocidentais rotulam este país como ditatorial devido ao “estilo de governo autoritário” implementado (admitido pelo próprio presidente), sendo o único país europeu que prevê a prática da pena de morte apesar de ser o 53º mais desenvolvido segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2020 das Nações Unidas. Considerada por muitos como um “fantoche” de Putin, a Bielorrússia ratificou, em 1997, um acordo que prevê a unificação dos dois países a nível militar, económico e da política externa, conhecido como “Estado União”. Em 2008, deram-se os primeiros passos no sentido de uma consonância monetária e tributária, porém, atualmente, a situação encontra-se num impasse.

Parte deste impasse deve-se à grande agitação política que se viveu no país durante o ano de 2020. O autoritarismo do governo de Lukashenko somado à postura da administração face à pandemia da COVID-19 e à fraude eleitoral já intrínseca ao país deslocou os bielorrussos às ruas, iniciando-se uma série de protestos contra o Presidente marcados por violência policial e pela detenção, não só de cerca de 1300 protestantes, mas também de candidatos da oposição. O mandato deste político perdura desde 1994, tendo apenas as eleições desse ano sido consideradas “justas e livres” pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Uma sexta vitória consecutiva de Lukashenko nas eleições suportou a continuação dos protestos até março de 2021.

Neste momento, a tensão entre a Ucrânia e a Bielorrússia, com especial contributo da Rússia, está ao rubro.

Foram vários os ministérios ucranianos cujos sites foram alvo de um ataque cibernético em massa entre os dias 13 e 14 de janeiro, justamente após a última ronda de negociações entre Moscovo e o Ocidente (não conduzindo a nenhuma alteração da crítica situação ucraniana).

O ataque cibernético conseguiu desativar temporariamente sites de vários departamentos governamentais, paralisando grande parte da infraestrutura digital do governo. Por exemplo, Дія (Diia), um dos mais utilizados pelos cidadãos ucranianos para aceder a documentos digitais a partir dos seus telemóveis, permitindo o acesso a mais de 50 serviços, consta na lista de sites que foram alvo destes ataques.

Na altura do ataque foram divulgadas mensagens alarmantes, como: “Ucranianos! Todos os vossos dados pessoais foram apagados e não é possível restaurá-los… tenham medo e esperem pelo pior”. Contudo, as autoridades ucranianas negam qualquer tipo de roubo ou divulgação de dados pessoais e afirmam que foi possível recuperar todo o conteúdo dos sites afetados. O Ministério da Cultura e Política de Informação aponta Moscovo como autor do ataque, relembrando os inúmeros ataques cibernéticos que a Rússia infligiu na Ucrânia nos últimos anos.

De imediato, surge a notícia de um treino militar na fronteira com a Ucrânia.

“Tencionamos realizar esses exercícios em fevereiro. Vamos fixar uma data exata e vamos divulgá-la, para que não sejamos acusados de trazer tropas sem aviso prévio e de quase partir para uma guerra”, declarou Lukashenko dirigindo-se a funcionários do Ministério da Defesa a 17 de janeiro.

Lukashenko ainda afirma ter, em dezembro de 2021 juntamente com Putin, estipulado o exercício de manobras militares conjuntas sem marcação de uma data ou determinação do número de soldados recrutados. Porém, só nos foi dada recentemente a conhecer a intenção de executar estes exercícios no flanco sul do seu território limitado pela Ucrânia e nas suas fronteiras com a Polónia e Lituânia, contudo, o número de soldados convocados ainda não foi oficialmente divulgado.

Este anúncio surge numa altura de crescentes tensões entre o Ocidente e a Rússia geradas em torno da segurança da Ucrânia, aliada ocidental vizinha da Bielorrússia e cuja luta contra separatistas pró-russos perdura há já vários anos. Ainda assim, Lukashenko defende a realização destes exercícios afirmando tratar-se de uma resposta conjunta justificável face a possíveis ameaças externas, nomeadamente o fortalecimento das condições bélicas da NATO na Polónia e nos Estados Bálticos.

O desenvolvimento da cooperação entre a Rússia e a Bielorrússia tem vindo a preocupar a Ucrânia devido ao progressivo aumento do equipamento de guerra e de tropas militares russas reunidos na Bielorrússia junto à sua fronteira, pelos vistos com razão. Apesar de a Rússia ter negado qualquer intuito de atacar enquanto escrevíamos este artigo, no passado dia 24 de fevereiro de 2022 essas declarações revelaram-se falsas: a Rússia invadiu a Ucrânia. Irá a guerra ultrapassar as fronteiras ucranianas? Será a NATO forçada a intervir? As sanções económicas em preparação irão travar a Rússia? Só nos resta esperar para ver os próximos desenvolvimentos.