Olho pela janela e vejo, no horizonte, mais uma vez uma nuvem de fundo. Poderia ser uma nuvem branquinha, daquelas que fazem lembrar os contos de fadas ou que nos fazem imaginar uma vida onde não há problemas. Mas não, é mais uma vez uma nuvem cinzenta, quase preta, que só me consegue fazer pensar na pergunta de sempre: “Porquê?” 

Trata-se de mais um incêndio, desta vez a poucos quilómetros da minha habitação, mas que se assemelha a qualquer um dos outros incêndios ativos no território mundial. Uma grande nuvem de fumo escura e assustadora que me faz temer pela minha segurança. 

A verdade é que os fenómenos de incêndios florestais, não só portugueses, como no mundo inteiro, têm vindo a ser alvo de estudo. No entanto, estes estudos, que têm em vista não só a prevenção e combate destas catástrofes, como também as causas e efeitos das mesmas, não têm tido resultados satisfatórios. E mais uma vez eu pergunto-me “Porquê?” Será falta de informação? Será falta de interesse na existência de informação? A realidade é que com a quantidade de notícias e manchetes de jornal com o título “incêndio”, este devia ser um tema de importância especial. 

Nos últimos 70 anos, sucedeu-se um aumento abrupto da quantidade de incêndios, bem como das áreas ardidas, o que, na minha opinião, se poderá ter devido às alterações introduzidas na estrutura socioeconómica da população portuguesa. O forte desenvolvimento industrial dos anos 60 acompanhou o êxodo rural e a emigração de uma grande parte da população portuguesa, o que por sua vez conduziu a um abandono generalizado de campos agrícolas, que naturalmente, depois de abandonados, passaram a ser propensos para a existência de incêndios. 

Paralelamente, a evolução dos últimos anos em Portugal diminuiu a existência de postos de trabalho em áreas como a agricultura e/ou a apicultura, assim como conduziu a um menor uso de lenha e carvão como combustíveis e dos estrumes como fertilizantes, pelo que cada vez mais matas são abandonadas. 

Atualmente, também a falta de mão de obra jovem, e as escolhas quotidianas de ter momentos de lazer poderá constituir um perigo para a saúde das matas portuguesas com as tão famosas beatas ou fogueiras tão propícias nos encontros ao ar livre. 

Uma outra grande causa de incêndios neste país consistiu na vaga de calor que invadiu Portugal em meados de julho e que desencadeou uma forte vaga de incêndios florestais. Massimo Forte alerta para a importância deste flagelo, que afeta também o setor imobiliário. Os proprietários privados devem, então, assegurar a limpeza dos terrenos e a não construção de casas em locais de risco de incêndio sem acessos para os combater. Além disso, também a burocracia na habilitação de herdeiros e de múltiplos proprietários de terrenos faz com que haja muitos locais abandonados, assim como imóveis pertencentes a imigrantes ou proprietários estrangeiros. 

O problema é que nem todas as causas de incêndios são inocentes ou sem maldade associada, mas, muitas das vezes, constituem uma vontade de procurar lucro de forma fácil, abrir novas empresas de limpeza de matas e/ou até cumprir algum tipo de desejos piromaníacos. Talvez até constitua uma doença mental, uma das tantas que existem nos dias de hoje. No entanto, mais uma vez eu questiono-me “Porquê?” De tantas doenças, porquê ter uma que afeta todos em geral e alguns em particular. Deve ser triste… 

A verdade é que todo este tema dos incêndios é triste e não tem aspetos positivos, mas acima de tudo faz-me confusão… Como é que no mundo em que estamos, cheio de intempéries, poluição, obstáculos, há tanta falta de consciência ecológica que permite alguém atear um fogo e destruir o parco planeta em que vivemos. 

Os incêndios florestais têm consequências incalculáveis. Desde a destruição da agricultura, seja ela de subsistência ou de complementaridade; o favorecer da proliferação de pragas, que implica a morte dos poucos seres vivos sobreviventes; os exigentes subsídios pagos a proprietários florestais; e os encargos com o transporte e abate das árvores queimadas, são alguns dos efeitos que os incêndios podem provocar. 

A realidade é que não é muito comum os governos contabilizarem os milhões de estragos que os incêndios fazem, mas sim os encargos que o combate e a prevenção de incêndios impõem. 

“Porquê?” Porque não pensamos nas consequências dos nossos atos? Porque não evitamos que mais uma vez a mata a quilómetros de nós comece a arder? 

Muitos incêndios têm origem em trabalhos com máquinas e equipamentos agrícolas ou florestais. Neste sentido, o movimento Portugal Chama, criado pelo governo português, tem como objetivo ajudar na prevenção dos incêndios alertando para simples atos que todos os cidadãos podem ter, como ligar para o 112 em caso de avistar um incêndio, ter um extintor nas maquinarias utilizadas nas florestas, consultar o risco de incêndio de forma recorrente, não lançar foguetes e não fazer fogueiras ou queimadas. Não há desculpas para a falta de preocupação, e acima de tudo, de ação.  

O maior número de bombeiros portugueses são voluntários, há tanta gente com ação, mas o que é feito deles sem a nossa ação? Todos temos de agir! Em 2021, Portugal foi considerado pela Eurostat como o oitavo país com mais bombeiros profissionais, cerca de 14 mil dos 365 mil no espaço comunitário, o que perfaz um total de 0,3% da despesa da administração pública na proteção contra os incêndios. 

“Porquê?” Porque morrem pessoas inocentes, árvores, animais, hectares de natureza? A verdade é que o ritmo dos fogos é alucinante e muito superior ao ritmo da regeneração das árvores das nossas florestas.  Os nossos bombeiros não continuarão a suportar a situação e mais tarde ou mais cedo, isto terá mesmo de parar. Até lá, o meu coração está incendiado de ódio pelos ateadores, pelas catástrofes e pelos azares. E dói, arde e queima, assim como cada hectare que foi queimado neste verão. Mas eu acredito que isto vai ter de parar. Até lá, resta-me esperar. Até lá, resta-me cuidar da floresta. Até lá, resta-me perguntar “Porquê?”