Também incluído no FEPIANO 47, publicado em Maio de 2022
Passados mais de 20 anos, a inflação ressurgiu com força no nosso quotidiano e pode pôr em causa a qualidade de vida de muitas pessoas. Este ensaio incide sobre como a inflação pode ser vista como um cancro. Mais particularmente, vou focar os meus esforços em três direções. Em primeiro lugar, analiso porque é que a inflação pode ser entendida como uma doença para a economia e quais os efeitos nefastos que cria na atividade económica. Em segundo lugar, explico que características são partilhadas entre o cancro e a inflação. Por fim, falo sobre os tratamentos possíveis para a inflação, nomeadamente a política monetária – a quimioterapia – e a política orçamental – os cuidados paliativos.

Porque é que a inflação é uma doença para a economia?
A inflação tem o potencial de prejudicar todos os agentes económicos: famílias, empresas e instituições. As famílias tendem a ser as mais prejudicadas em processos inflacionários. Isto acontece porque a inflação rouba poder de compra às famílias. Esta ideia fica fácil de se perceber com um exemplo pessoal: em Outubro do ano passado, a regueifa da minha padaria custava 1,10€; atualmente custa 1,45€. Isto significa que o que dantes gastava em quatro regueifas, agora só me permite comprar três. Ou seja, com o mesmo rendimento, a inflação impede que as pessoas comprem os mesmos bens e serviços.
Mas se a inflação prejudica as famílias, isso não quer dizer que beneficie as empresas. As empresas também podem esperar muitos problemas provenientes da inflação. Por um lado, a inflação traz mais incerteza. Por exemplo, imagine uma empresa que tem que esperar meses pela sua matéria-prima depois de a encomendar. Nesta altura, nenhum fornecedor se compromete com o preço da matéria-prima na altura da encomenda; acertam o preço quando ela sai da fábrica. Portanto, esta empresa pode vir a ter um problema quando acerta os preços com os seus clientes porque, de repente, o preço da sua matéria-prima pode aumentar de tal forma que ela pode vir a ter prejuízo. E então quando se fala de investimentos que demoram anos a pagar, introduzir mais incerteza desencoraja qualquer decisão de investimento.
Por outro lado, não nos podemos esquecer que as consequências da inflação sobre as famílias podem afetar as empresas. Se as famílias ficam com dificuldades em manter o seu estilo de vida, os primeiros gastos a desaparecer são os supérfluos como, por exemplo, restaurantes, hotéis e viagens. Se verificarmos esta alteração do perfil de despesa das famílias europeias, isto poderá prejudicar seriamente o nosso setor do turismo.
Por fim, instituições como o Estado ou o Banco Central também podem vir a ter problemas com a inflação. Por um lado, a redução do poder de compra das pessoas pode aumentar o risco de pobreza e a consequente tensão social. Por outro lado, a perda do valor da moeda pode pôr em causa a credibilidade da mesma e, consequentemente, da gestão do Banco Central Europeu. Num ambiente onde o projeto europeu está a ser testado pelas forças políticas extremistas e pela guerra na Ucrânia, a inflação veio dificultar ainda mais o teste.
Velocidade de disseminação: a característica cancerígena
Se o leitor já estiver convencido de que a inflação é uma doença com diferentes ramificações, deixe-me então explicar porque escolhi o cancro (de todas as outras doenças). A semelhança entre ambos está na velocidade de disseminação. Depois do cancro aceder a vasos sanguíneos críticos, ele tem a facilidade de se espalhar e multiplicar a uma velocidade preocupante.
A inflação partilha exatamente as mesmas características: depois de um setor crítico (por exemplo, o energético) sofrer com aumentos dos preços, a grande maioria dos outros setores sofrerá pressão para aumentar preços. E o mais preocupante é que, se a inflação não for travada a tempo, ela facilmente acelera. Por exemplo, há um ano atrás, a inflação na Zona Euro estava nos 1,3%; atualmente estás nos 7,5%. Se mantivéssemos este ritmo de crescimento (o que é algo muito improvável), a inflação para o ano estaria nos 60%.
Quem começa a ficar preocupado com o ritmo atual da inflação é o BCE que assumiu no último boletim económico que está a ter dificuldades em acompanhar este ritmo e que o erro de previsão foi o mais alto de sempre. Falaremos então sobre o papel do BCE no controlo da inflação.
Como tratar a inflação? Quimioterapia e Cuidados Paliativos
Felizmente o tratamento do cancro está a evoluir a um ritmo entusiasmante e existem cada vez mais soluções. Ainda assim, para que a minha metáfora continue a fazer sentido, iriei recorrer a dois dos tratamentos mais conhecidos: a quimioterapia e os cuidados paliativos.
No combate à inflação, o detentor da quimioterapia é o BCE. A solução para travar a inflação é subir as taxas de juro, mas como acontece com a quimioterapia, existem efeitos colaterais sérios nos três agentes económicos. Em primeiro lugar, com o aumento das taxas de juro, as famílias endividadas ficam ainda com menos rendimento porque a prestação da casa sobe. Uma subida demasiado alta pode fazer com que muitas famílias tenham que devolver a casa aos bancos. Para além de o risco de pobreza subir perigosamente, isto poderá ter outros efeitos dominó que poderão prejudicar os próprios bancos comerciais. Em segundo lugar, não nos podemos esquecer que muitas empresas pediram empréstimos para poder pagar contas durante os confinamentos. Com o aumento da taxa de juro, algumas empresas poderão ficar com custos incomportáveis e, no limite, fechar. Por fim, o próprio Estado vai ter problemas porque o aumento da taxa de juro vai fazer com que o custo da nova dívida aumente, aumentando a sua despesa. Portanto, o BCE consegue controlar a inflação, mas a que custo? Este equilíbrio está a ser estudado muito cautelosamente e é por isso que o BCE ainda não avançou com convicção neste sentido.
Por fim, existem alguns paliativos que o Estado português já usou. Digo paliativos porque as políticas como o IVAucher ou a redução do ISP não resolvem o problema de base, mas conseguem esconder timidamente algumas das consequências da inflação. Ainda assim, o Estado português sabe que está de mãos atadas porque muita da nossa inflação não é gerada internamente, é importada. Não nos podemos esquecer que somos um país particularmente dependente de bens estrangeiros e que, portanto, a solução para reduzir a inflação não reside cá dentro. A juntar a isto, terá o Estado português muito interesse em combater a inflação? A inflação acaba por ser um imposto escondido porque faz aumentar automaticamente as receitas fiscais. Num clima com pouca pressão eleitoral, tudo indica que quem está a segurar a agulha da morfina poderá não ter muito interesse em usá-la.

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