Conduzida por João Sequeira e Matilde Rosa Cardoso
Também incluída no FEPIANO 12, publicado em Novembro de 2014
Quem é Francisco Louçã para lá da figura pública?
Ninguém é juiz em causa própria. O meu trajeto é suficientemente conhecido. Sou economista e fui deputado durante treze anos. Gostei muito de o ser, tendo-me dedicado à luta pelas ideias que defendo, desde muito novo, e assim espero continuar. Eu não me canso. Acho que temos tantas dificuldades e uma crise de tal dimensão no país que precisamos de gente incansável.
Tinha 14 anos quando Marcello Caetano lhe perguntou o que pretendia seguir após terminar o Ensino Secundário, tendo-lhe respondido que queria Economia. Marcello Caetano comentou que era “um antro de comunistas”. Como encarou este comentário?
Com alguma surpresa, mas com muito agrado. Repare-se que toda a minha família estava ligada à luta contra o salazarismo. O meu avô tinha vivido quase toda a sua vida exilado e esteve preso várias vezes. Para todos nós, era muito claro o significado de ditadura. Ouvir o ditador dizer que uma parte da universidade pública era um lugar de oposição significou para mim, por si só, uma encantadora confirmação de que era bom estudar Economia.
Participou ativamente na luta política contra a ditadura e a guerra colonial, o que lhe custou a liberdade. Que acontecimentos recorda desses tempos?
Estive preso, na altura, na Capela do Rato. Um conjunto de cristãos – a que eu e alguns amigos estudantes nos associámos – fez uma ocupação simbólica de uma capela no centro de Lisboa, mantendo uma vigília e uma assembleia de debate sobre a guerra colonial. Estávamos em 1972 e a guerra ocorria já há muito tempo, sendo um grande problema nacional. Foi uma iniciativa de imensa coragem por parte desses cristãos. Fiz grandes amigos, como Francisco Pereira de Moura, Luís Moita e António Pereira, que foram presos comigo e que, aliás, ficaram detidos durante mais tempo. Tinha acabado de fazer 16 anos e, portanto, estava no limite da legalidade da prisão. Foi um período muito diferente do que Portugal é hoje. Havia uma guerra colonial e uma ditadura, tudo circunstâncias que hoje não temos. Portugal modernizou-se profundamente graças ao 25 de abril e todo esse período foi exaltante, interessantíssimo, fascinante, uma história que está a ser feita por nós.
Terminou o Mestrado em Economia e Gestão da Ciência e Tecnologia com média de 18 valores, em 1992, e foram-lhe atribuídos diversos prémios de mérito. Que conselho pode dar aos estudantes para obterem sucesso académico?
Eu não quero dar conselhos a estudantes, até porque sou professor, mas julgo que é preciso trabalhar sempre muito. É necessário estar-se muito atento à sociedade. A ciência é uma parte da cultura e do conhecimento e a Economia, em particular, é uma ciência social sobre pessoas, que têm dificuldades, com vidas difíceis, que lutam por si e pelos outros. Para os conhecer, é preciso dominar os instrumentos da Economia, as técnicas, a matemática, a estatística, as teorias, as ideias, os modelos e é necessário, sobretudo, conhecer a nossa gente, sendo preciso trabalhar muito para isso.
Acompanha aqueles que afirmam que a política em Portugal está descredibilizada?
As generalizações são sempre muito difíceis. “Ah! Portugal é um país marginal em que os políticos são todos iguais!” Eu creio que nada disso tem verdade. É claro que há uma governação com pouca credibilidade, porque conduziu a um enorme aumento do desemprego e da pobreza, vangloriando-se disso. As políticas de austeridade são políticas destrutivas, são uma forma cruel de conduzir a economia e, como tal, não podem ser bem recebidas pelas pessoas. Há, também, fenómenos de corrupção relativamente fortes e graves, de desrespeito pela democracia, de autoritarismo, de submissão aos ditames de Merkel ou da União Europeia e tudo isso é descredibilizante. Por outro lado, a política é, também, cada pessoa com o seu direito a decidir, através do voto, da sua vontade e da sua voz, pelo que a democracia é, ela própria, sempre a base da credibilidade das soluções.
Conta que vivemos, atualmente, sob uma “ditadura da dívida”. De que forma nos podemos libertar desta?
A reestruturação da dívida é o ponto de partida para uma política económica razoável em Portugal. É necessário abater uma parte importante do peso da dívida sobre a economia nacional para que aquilo que produzimos possa ser utilizado para a criação de emprego e para o desenvolvimento económico e das competências do país. Se não for assim, Portugal será sempre um protetorado, o que é aterrador.
Caso não seja possível levar a bom porto uma renegociação da dívida, como defende, a saída de Portugal do Euro será o único caminho a seguir?
A saída constitui a solução última. Penso ser uma solução difícil, pelo que é preciso trabalhá-la bem. Esse trabalho está, em grande medida, por fazer para se perceber como se resolvem os problemas. Os economistas têm a obrigação de ser muito honestos com a opinião pública. O livro que escrevi com Ferreira do Amaral sobre o que fazer se a saída do Euro for inevitável é um livro que apela à inteligência das pessoas, pois não as quer convencer de facilidades, mas sim falar-lhes das dificuldades, o que, para mim, é o correto. Contudo, a maior parte dos problemas mais graves podem ser resolvidos e, se Portugal não tiver outra solução, tem que ter a coragem de sair do Euro.
A Europa é o que nos vale ou o que nos sufoca?
Neste momento, é o que nos está a destruir. Quando Merkel e a Comissão Europeia se permitem contestar um aumento do salário mínimo nacional ou a existência de contratos coletivos de trabalho, quando Merkel se permite criticar o sistema de edução em Portugal, quer dizer que nos tratam como um sapato velho e que têm um grande desprezo pelo direito democrático do povo português tomar essas decisões; põem em causa a nossa soberania sobre a matéria. A União Europeia transformou-se numa prisão.
O que pensa sobre a crescente fragmentação da Esquerda política portuguesa e, particularmente, do Bloco de Esquerda, partido do qual foi fundador e coordenador?
Não falo sobre questões de vida política do Bloco de Esquerda, porque tal não me compete. São os seus coordenadores que o devem fazer. Creio que qualquer processo de fragmentação é negativo, sobretudo porque há todas as razões para a convergência. Hoje em dia, há um consenso muito forte, em sectores muito amplos da sociedade, contra a desgraça das privatizações – veja-se o caso da PT. Assinei um texto, em conjunto com outras pessoas relevantes, porque achamos que é inaceitável que se perca um bem público como o sistema de telecomunicações em Portugal. O mesmo se dirá em relação a um grande consenso sobre a questão da dívida. É possível criar uma convergência forte sobre temas decisivos que responda aos problemas nacionais. E isso é o contrário daquilo que tem acontecido.
Quando deixou a coordenação do Bloco de Esquerda, sugeriu, como acabou por se concretizar, uma dupla que lhe sucedesse. Quais considera serem os benefícios de uma coordenação bicéfala?
O Bloco tomou uma decisão sobre como deveria funcionar. Há muitos partidos que têm coordenações entre um homem e uma mulher. Corresponde a uma noção de paridade, que é uma noção moderna. Se é útil ou não, cabe ao Bloco decidir.
Em 2010, participou na escrita do livro “Os Donos de Portugal”. Quem são eles?
“Os Donos de Portugal” identifica um conjunto de cem famílias (cerca de mil pessoas), que têm, aproximadamente, metade do Produto português. É o núcleo chave da burguesia portuguesa, que representa 0,01% da população. Se considerarmos toda a classe social que está à sua volta, como os administradores e a estrutura de poder, reunimos 3% da população portuguesa, que podemos designar por burguesia. Esses são, em geral, os donos de Portugal. É envoltos nestes interesses que estão os grandes escritórios de advogados e é através destes mesmos interesses que se fazem representar os donos do sistema financeiro nas privatizações, mesmo quando sofrem de percalços importantes. Note-se o caso da família Espírito Santo, que agora perdeu uma parte importante dos seus ativos, porque entrou em falência.
Em coautoria, escreveu o livro “Os Burgueses”, um levantamento de todos os governantes portugueses dos dezanove Governos Constitucionais. Foi feita uma análise à carreira profissional de 776 pessoas e verificou-se que, ao saírem do Governo, grande parte destes ex-governantes foram ocupar lugares em administrações de empresas. Que comentário merece esta realidade?
Identificámos os ex-governantes que vêm das empresas e das administrações e aqueles que, depois do Governo, vão ocupar esses lugares, que é a situação mais comum. Há casos muito diferentes entre si, mas percebemos o peso que têm. Porque é que uma parte tão importante vai para empresas financeiras, parcerias público-privadas ou para grandes grupos económicos? Concluímos acerca desta inter-relação social que se faz entre governantes e o poder económico e de que modo se condicionam mutuamente. Constitui um retrato da forma como Portugal é governado.
Atualmente, é professor no Instituto Superior Economia e Gestão de Lisboa. Pondera regressar à vida política ativa, nomeadamente candidatar-se às próximas presidenciais?
Apesar de não ter saído da vida política, tenho responsabilidades muito diferentes. Acho que o princípio republicano significa que ninguém se deve perpetuar nas mesmas funções. Fui deputado durante treze anos, com muito gosto, mas acho que ninguém deve ficar toda a vida no Parlamento, nem o Parlamento deve ser a sua profissão. Devemos dedicar-nos à causa pública e ser eleitos e reeleitos, se assim o entendermos, mas tem que haver substituição dos lugares. Isso é muitíssimo importante. Tomara eu que fosse mais aplicado em Portugal. Tenho uma atividade de opinião pública intensa e continuarei a tê-la. Sou leal ao meu partido. Acho muito importante que haja uma Esquerda de combate, com ideias socialistas, aberta, plural e com capacidade de modernização. As eleições presidenciais estão, ainda, relativamente longe. Creio que é importante que haja uma candidatura que represente a luta contra a austeridade e creio que há pessoas muito capazes de o fazer.
Um dos seus gostos pessoais é viajar. Consegue planear facilmente a sua agenda de forma a fazê-lo?
Agora sim. (risos) Nos treze anos em que estive com funções importantes dentro do Bloco de Esquerda, nunca tinha nenhum fim de semana para mim. Só podia viajar nos poucos dias de férias que tinha. Praticamente, não podia ir a congressos académicos. Continuei a publicar livros, que escrevia no Verão ou nas férias do Natal, mas tinha uma vida bastante limitada. Agora, passou a ser muito mais livre e isso permite-me planear alguns passeios com muito gosto. Estive há poucos dias em Nova Orleães, que é uma cidade fascinante, que vive da música e que é o berço do jazz. Foi encantador.
O que o move e comove?
Movem-me os valores que sempre tive e que fui aprendendo, a curiosidade pelas pessoas, o encanto por descobrir seres fascinantes, a vontade de lutar por um mundo que seja mais justo e no qual possamos sentir- -nos melhor uns com os outros – a ideia de comunidade. Comove-me encontrar casos, pessoas, vidas que me ensinam muito. Saramago dizia uma coisa muito bonita: “A pessoa mais culta que conheci foi o meu avô, que era analfabeto.”. Acho que ele resumiu muito daquilo que é a nossa história. Vivi momentos arrebatadores e espero viver outros muito melhores. Zeca Afonso dizia que “os anos da revolução em Portugal foram os melhores da nossa vida”. De facto, foram os melhores anos da minha vida, mas espero ainda ter outros tão intensos, comoventes e fascinantes como aqueles.
O que vale realmente a pena na vida?
Vale viver. Viver com os outros, viver para os outros. Acho que a vida é magnífica.






