Conduzida por João Sequeira e Matilde Rosa Cardoso
Também incluída no FEPIANO 16, publicado em Maio de 2015
Quem é António Capelo para lá da figura pública?
Eu não sei muito bem o que é isso da figura… O António Capelo enquanto figura pública vê-se, sobretudo, pela sua atividade profissional. Não interessa andar a mostrar o que não seja essa atividade, porque essa chega com relativa facilidade às pessoas. Sou muito mais figura pública, nesse sentido, pelo trabalho que faço na televisão, que é muito menor do que o que faço no teatro. Um espetáculo de teatro é uma atividade pública que chega a poucos públicos, infelizmente. A minha vida tem sido repensar a minha atividade profissional do ponto de vista da relação com a sociedade e com o ser cívico, que penso que todos nós devemos ser. Fundei duas ou três companhias de teatro, porque sempre achei que o meu percurso depende das minhas energias e daquilo que acho que deve ser a minha atitude profissional na relação com a vida. Essa relação é, também, fundamental para um ator, não porque o teatro seja a vida, mas a maneira como eu olho para a vida. Tudo o que tenho feito tem a ver com as minhas atividades profissionais, o meu rigor e a minha postura. Tudo o resto não tem interesse nenhum.
Podemos pensar em si como um revolucionário?
Se pensarmos que um revolucionário é aquele que no seu tempo pensa o seu mundo e tenta intervir nele para o tentar transformar, sim. Se bem que eu gostaria de ter sido revolucionário num tempo mais propício à própria revolução. Não é que o tempo atual não lhe seja propício, nós é que não somos revolucionários o suficiente para a fazer. Vivemos um tempo que precisava muito de uma nova revolução, com armas ou sem armas, com cravos ou sem cravos, mas uma revolução que mudasse o paradigma da nossa vida. Da mesma maneira que olhamos hoje para a Idade Média e sentimos que o ano 1000 foi o ano obscuro, acho que este nosso tempo vai ser relembrado nesses moldes. Estas coisas do Ocidente e Oriente, de voltarmos a discutir porque é que há seres humanos a passar fome não é grandemente interessante para um ser social que nós queremos no século XXI. São problemas que deviam estar absolutamente erradicados da nossa vida.
Aos 9 anos, saiu da aldeia para ir estudar para a cidade. Quais foram os maiores desafios com que se defrontou?
Recordo-me vagamente. Lembro- -me de que atravessar a estrada era muito menos simples na cidade do Porto. Tive que deixar a minha aldeia e os meus amigos, a liberdade que tinha enquanto criança. A minha primeira ligação a um certo rigor e disciplina tem a ver com esta mudança abrupta. Saí da liberdade plena que me obrigou a começar a aprender algumas coisas, muito cedo: é possível, apesar de tudo, ser rigoroso, disciplinado e livre ao mesmo tempo. A minha infância foi determinando aquilo que eu sou. Sou absolutamente desorganizado, mas muito disciplinado. Independentemente de tudo o que aprendi como ser humano na minha vida, a maior aprendizagem foi no teatro. O teatro ensinou-me tudo. Como comecei cedo nesta arte e fui “vítima” de uma revolução, no bom sentido, a seguir a abril de 1974 fiz tudo o que possam imaginar, a todos os níveis.
Como nasceu e cresceu o seu interesse pela representação?
Não há uma ideia de gosto pelo teatro desde de muito novo, há uma ideia de gosto pela comunicação. O ato de comunicar pode ser feito de diversas maneiras. Experimentei imensas coisas, tendo, inclusivamente, pensado se deveria ser músico ou ator. Depois as coisas foram-se encaminhando mais para o teatro, como se, de alguma forma, ali encontrasse o alicerce da ideia de comunicação, porque, como diz Platão, o teatro é arte da música, da dança e é a única arte onde o todo é maior do que a soma das partes.
Como se aprende a lidar com o beijo, o toque e as cenas mais íntimas?
Isso aprende-se na vida, é intuitivo, é animal. Como se aprende a lidar com isso de forma falsa é outra coisa. É uma falsidade que se tem que fazer tão bem que parece verdade. A primeira coisa que se tem que assegurar é uma plena confiança na pessoa com quem se está a trabalhar. No fundo, quando se está em cena com alguém, tem que se ter confiança no outro e o paradigma dessa absoluta confiança é uma cena de intimidade. Se não se confia, a cena não funciona. A partir daí, tudo o resto flui com naturalidade.
Acredita que todos os atores conseguem distinguir a ficção das emoções pessoais?
Comigo é sempre assim. Pelo menos tem sido. Já me aconteceram várias coisas: fiz espetáculos completamente nu no teatro, fiz nus em pelo menos dois filmes, centenas de cenas de cama, beijei homens e mulheres. Não se tem espaço para intimidade séria. Tenho que me concentrar no ato criativo.
Após um dia de gravações, consegue despir totalmente a personagem?
Depende. Nem todas as personagem têm a mesma dimensão e nem todas nos sugam da mesma forma. O Édipo é um espetáculo com duração média, no entanto a densidade dele é tão forte do ponto de vista humano que se chega ao fim completamente de rastos e se começa a pensar no porquê de estar tão cansado. Na televisão é muito cansativo porque se trabalha muitas horas por dia e pode acontecer estar a trabalhar em estúdio a gravar, a gravar, a gravar… Fiz um crachá que diz “Eu avio 52 cenas por dia”. É muito cansativo, mais por este lado do que propriamente pela densidade da personagem. No teatro, a personagem rouba tanto que quando acaba sente-se um verdadeiro cansaço. É muito frequente, no final de um espetáculo, os atores ficarem num estado que não lhes permite sequer adormecer. É daí que se diz que os atores são uns boémios. É uma necessidade de tempo para recompor e voltar à normalidade.
Prefere ser herói ou vilão?
Prefiro os vilões que são heróis. A dicotomia entre o que é bom e o que é mau existe, sobretudo, nas novelas que, do ponto de vista dramático, são muito incipientes. Se repararem, sempre que eu faço uma personagem nas novelas, esta não é nem só boa nem só má. Ou, pelo menos, eu tento que assim não seja. No fundo, o que pretendo dizer às pessoas é que as más, como a minha personagem, em Mar Salgado, – ou, se quiserem, como Ricardo Espírito Santo, que é uma pessoa leal –, não são taxativamente más. Um ser como o Édipo, que foi o último trabalho que fiz no teatro, que mata o pai e casa com a mãe, é um vilão ou é um herói? Sob esta perspetiva é um vilão, mas, na perspetiva do homem que quer saber a verdade incessantemente, é um dos maiores heróis da história da humanidade. Às vezes, quando faço personagens que agem de maneira incorreta, sou insultado na rua. Há uns anos, quando interpretava um papel de um marido que batia na mulher, deixei de ir às compras ao Mercado do Bolhão. Não é que as senhoras me fossem bater, mas era altamente insultado… Fazer um herói ou um vilão é-me indiferente, na medida em que qualquer um deles me acrescenta mais-valias.
O que é na vida real?
Se perguntarem aos meus alunos, respondem que sou um vilão. (Risos) Tenho dias em que sou herói e outros em que sou vilão.
Portugal tem talento?
Portugal tem um talento enorme para a lamúria, para o fado. Somos muito mais para o lamento do que para a ação. É muito difícil falar do meu país quando cá estou. Há uns anos, pediram-me para escrever um artigo sobre a cidade do Porto, mas nem sempre se tem coragem de dizer aos outros aquilo que se pensa. Como é que falo da minha cidade se eu a habito todos os dias, se aqui estou todos os dias, se lido mal com ela todos os dias? Mas, no fundo, não a amo? A palavra saudade ajuda-nos a perceber isso. Quando escrevi sobre o Porto, fi- -lo como se estivesse no Brasil. Quando estamos fora e as coisas nos faltam, sentimos necessidade delas. Nessa perspetiva, acho que somos muito talentosos, mas temos que aprender a viver a ideia da presença como vivemos a ideia da ausência; sermos tão fortes quando estamos presentes quanto quando estamos ausentes. Talvez por isso tenhamos viajado tanto: para sentir como gostamos dos outros quando cá não estamos. Este é um talento muito português, que tem séculos e séculos, e que é fonte de uma criatividade muito profunda. É pena que sejamos mais criativos do que ativos ou reativos. Somos mais ativos no pensamento e, por isso, temos muitos poetas, bons escritores. Se pensarmos em revolucionários, temos muito poucos.
A cultura sente-se órfã sem a existência de um ministério exclusivamente a ela dedicado?
Penso que isso afeta fundamentalmente a maneira como alguns políticos pensam a cultura – ou não pensam a cultura, que acho que é o que acontece à maior parte deles. Tivemos um Presidente da Câmara que falava de cultura com uma máquina calculadora nas mãos. Isto é um pensamento retrógrado. O que fazemos é serviço público, que é aquilo que o Estado deve fazer. Os políticos que estão em lugar de destaque no aparelho do Estado só nos deveriam estar agradecidos, porque estamos a fazer aquilo que eles nunca fizeram: perceber que a cultura, tal como a edução e a saúde, é um bem essencial ao desenvolvimento de um povo e de uma sociedade.
Vislumbra assimetrias quer na produção, quer no acesso ao património cultural?
Os apoios que o Estado atribui às artes são feitos através de concursos nacionais, que foram regionalizados. Se pensarem, como eu, que estes apoios aos atos criativos são dados fundamentalmente aos públicos, mais do que aos criadores, chegamos à conclusão de que um espectador da região de Lisboa custa ao Estado quatro vezes mais do que um espectador do Norte. Há, portanto, uma enorme assimetria na relação que o Estado estabelece com os seus cidadãos.
Não é por acaso que dizemos que o país está muito inclinado em relação a Lisboa. Estes apoios provêm do Orçamento do Estado, para o qual todos contribuímos, sendo que um contribuinte de Lisboa é igual a um contribuinte de Bragança e, como tal, não deve ser tratado de maneira diferente. No meu caso, apesar do Teatro do Bolhão estar radicado no Porto e de ser prioritariamente aqui que são apresentados os espetáculos, não somos um exclusivo da cidade e vamos a todos os sítios que conseguimos. Aliás, essa é uma ânsia nossa. O Estado devia perceber que estas ânsias, que são dos criadores, também são dos públicos.
Após uma década de obras de requalificação do Teatro do Bolhão, qual foi o sentimento que o invadiu no momento da reabertura?
Senti muito cansaço, porque foi um processo muito violento. Por outro lado, foi um caminho que me levou a uma meta e são estas pequenas coisas que me fazem acreditar que é possível. Fiz uma árdua campanha de mecenato para conseguir recuperar as salas do Teatro. Ouvi muitos “nãos” por cada “sim”, mas não foi por ter tropeçado e caído que deixei de ir por determinado caminho, se este era o mais curto para atingir o que pretendia. Apesar de cansativo, foi um processo muito gratificante e há de o ser mais ainda quando sentir que já não é meu e que caminha por si próprio. Isso é que é maravilhoso.
Fiz uma campanha, “Degrau a degrau”, porque precisava de 35 mil euros, que já nos fez ganhar quatro prémios de publicidade. Fui a vários estabelecimentos comerciais para que as pessoas comprassem um degrau e ficassem com o nome gravado, mas, a partir de determinada altura, já não precisei de o fazer, porque as pessoas começaram a contactar-nos autonomamente; o projeto começou a caminhar por si próprio.
Este projeto é um reflexo da sua maneira de ser e estar na arte?
Sim, até da minha maneira de ser pessoal. Obstinado, teimoso, o carneiro típico. Contudo, só vale a pena ser teimoso nas coisas em que se acredita. O espaço do Teatro do Bolhão pertencia a uma senhora. Começámos por arrendá-lo, durante um ano, de modo a que ela não o vendesse a ninguém, ao mesmo tempo que negociávamos o valor de aquisição. Foi um processo muito lento, mas sempre acreditei que chegaríamos a bom porto. Gostava que tivesse sido mais cedo, mais rápido e que as promessas tivessem sido todas cumpridas – até dei o nome de Sala das Promessas a uma das divisões –, mas, como isto era um projeto de vida no qual acreditava muito, não desisti. Na vida, um homem tem que escrever um livro, plantar uma árvore e fazer um filho. E se eu não escolher assim? Isto são apenas metáforas para a vida. Fazer a recuperação deste Teatro também foi importante.
Ao longo de quase 40 anos de intensa atividade profissional, consegue dedicar o tempo que gostaria às pessoas que lhe são mais próximas?
Tento fazer um esforço por isso, mas tem sido complicado. De alguma maneira, estou a tentar ganhar tempo onde o perdi – essa preciosidade que desperdiçamos enquanto somos novos. Estou à procura de um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, a todos os níveis. Voltei a ter uma relação com a minha aldeia, onde estou a construir uma casa. Os árabes têm uma palavra não traduzivel que significa o sítio em que se nasce e onde se há de morrer e que, à partida, devia ser o mesmo. Ainda que não seja árabe, quero muito ter um espaço no sítio em que nasci, no qual criei algumas imagens de relação com a terra e com a vida, porque foi ali que dei os primeiros passos… Quero partilhar isso com alguém. Não tenho interesse nenhum em estar lá sozinho. Quero levar os amigos para estarem comigo, para cozinhar para eles e para lhes falar daquele sítio. No fundo, não faz sentido de outra maneira.
O que o move e comove?
Move-me a inquietação. Sou capaz de estar em casa sozinho, a ver o telejornal, e de começar a disparatar e a falar, porque há coisas que me inquietam muito. Comove-me a dor dos outros, mais do que a minha própria dor. Acabo por ser um absoluto lamechas quando vejo, por exemplo, notícias das tragédias pelo mundo fora. Para viver, as pessoas não deveriam ter que sofrer. Os seres humanos movem-me e comovem-me.
O que vale realmente a pena na vida?
Uma coisa terrível é deixar de confiar, perder a confiança nas pessoas. O que vale realmente a pena na vida é confiar e sentir confiança nessa confiança. Vivemos num tempo em que toda a gente olha por cima do ombro e desconfia… Acho isso horrível, até ao nível económico. Não podemos confiar nos bancos. Viver a confiança nos outros é o melhor que há.






