Atualmente, e à escala global, o Japão é o país com a maior dívida pública em percentagem do PIB, representando cerca de 240% do PIB japonês. Até que ponto são as economias europeias, como Portugal, Itália e Grécia, que dominam o pódio de rácio da dívida atrás do Japão, e a economia japonesa comparáveis? Para responder devemos ir além da redutora análise da dimensão relativa da dívida. Há todo um contexto que molda as nações económica e socialmente e que condiciona a gravidade da dívida pública para o povo que a sustenta.

O Japão é um país que, apesar da baixa taxa de natalidade e da maior esperança média de vida do mundo, que contribuem para o contínuo envelhecimento populacional, demonstra um crescimento económico estável, embora curto. Revela-se a terceira maior economia do mundo, em PIB nominal, resultado de, entre outros aspetos, uma taxa de produtividade elevada aliada a uma taxa de desemprego abaixo dos 3%, que suportam um sistema de produção baseado na inovação e na tecnologia de ponta. Posto isto, há que considerar os fatores associados à dívida do Japão, tão distintos da realidade europeia.

Primeiro: Quem detém a dívida? Enquanto nos países mais endividados da União Europeia a dívida pública é maioritariamente detida por credores estrangeiros, nomeadamente as instituições que constituem a Troika, no Japão verifica-se exatamente o inverso. Apenas um décimo da dívida pública japonesa é detido por estrangeiros. Esta evidência altera substancialmente as consequências potenciais da dívida do governo. No Japão, o pagamento dos juros da dívida é canalizado na sua maior parte para o PIB, estimulando o seu crescimento. Pelo contrário, no caso específico de Portugal, o ónus tributário da dívida dispersa-se para o exterior. Assim, apesar de mais elevada, quer em termos brutos, quer em termos relativos, a dívida japonesa é menos punitiva para o governo respetivo.

Segundo: o Japão tem, no seu espectro de ações combatentes da dívida pública, a possibilidade da sua monetização, uma vez que tem total controlo sobre a sua moeda. E esta é uma jogada já efetuada pelo Banco Central, considerando o risco de deflação (ou baixa inflação) que coloca entraves à política monetária no país. Foram tomadas políticas não convencionais, como o Abenomics, mas os resultados positivos da depreciação do Iene não são ainda claros. Já para cada economia da Zona Euro, o poder sobre o Euro é nulo, que está nas mãos do BCE.

Não obstante, há que considerar que um crescimento do serviço da dívida pública superior ao crescimento do PIB, numa economia com um nível de dívida já elevado e que regista défices orçamentais primários, proporciona um crescimento explosivo da dívida. A dívida japonesa pode não estar a “dar problemas” para o país atualmente, mas tal não significa que este está impune de uma reviravolta da situação económica aparentemente estável. Todas as condicionantes acima mencionadas revelam uma iminente possibilidade de crise monetária.

Concluo com várias reflexões sobre o futuro do Japão. Com uma dívida crescente e uma população cada vez mais envelhecida, esta nação está, no futuro, obrigada a manter elevadas taxas de produtividade e a aumentar a receita do Governo, que, para já, se verificam, mas que têm limites. Até onde vão estes limites? Que alternativas existem? Que medidas podem vir a constituir a solução para a redução da dívida? E acima de tudo, está a dívida pública a tornar-se insustentável ou não?