Tempo, poder e dinheiro é o desejo de qualquer pessoa. Mas, enquanto sociedade, quão dependentes estamos destes fatores no nosso dia a dia, num tema como o da Saúde?

A Saúde é sempre um tema da ordem do dia e das principais preocupações do executivo de cada país. É raro o dia em que os telejornais não apresentam notícias relacionadas a este tema, mas não é difícil de entender os motivos por detrás. Por um lado, por já ser um problema histórico, com fome, pestes e guerras terem estado sempre bem presentes ao longo dos séculos da humanidade. Por outro, por ser claramente multifacetado – afinal, quando falamos de Saúde, podemos abranger uma grande panóplia de vertentes, desde doenças, gripes e epidemias a questões de vida ou morte, como aborto e eutanásia até às questões do dia a dia como a alimentação, o desporto e a saúde mental.

Apesar de todas as contrariedades oriundas deste tema abrangente, podemos perceber que a Saúde per si e os meios para a obter tem melhorado ao longo dos séculos e que algumas das preocupações anteriores, não são mais, hoje, tidas com grande importância. É possível comprovar apenas com dois exemplos. Em primeiro lugar, recordemos o caso da pandemia da Covid-19, que até meados de 2021 estava envolvida com estados de emergência ilimitados e restrições às liberdades individuais dúbias, foi, passados apenas dois anos, desconsiderada e comparada a uma simples gripe.

“Em 2020, registou-se a mais baixa taxa de mortalidade infantil de sempre (2,4 por mil nados-vivos)”

Mas podemos, também, em segundo lugar, fazer um pequeno esforço e recuar ainda mais no tempo. Historicamente, cerca de 25% dos bebés morriam antes de completarem um ano e pouco mais de metade das crianças chegava viva aos 15 anos. Enquanto que em 2020, registou-se a mais baixa taxa de mortalidade infantil de sempre (2,4 por mil nados-vivos) e eu pergunto quantas vezes vemos uma notícia referente a este problema. Pois bem, talvez uma a cada ano para serem lançadas as estatísticas. Um problema que era estrutural nas sociedades europeias e que agora se tornou completamente redundante.

O objetivo deste texto não é criar a retórica de que é feito um “alarido” exagerado às questões de saúde pública, mas, pelo contrário, é fazer perceber que a Saúde é e sempre será um problema estrutural, mas que as suas vertentes podem ver um fim, pois variam com o tempo. Problemas e tópicos de há umas gerações atrás não são os mesmos de agora. Além disso, este texto também tem como objetivo fazer entender como o posicionamento político influencia cada tema da saúde. Mas é importante, também, ter em conta que dentro da política, existem diferentes formas de intervenção, uma mais direta e parlamentar e outra mais indireta e de jogo de poderes.

O aborto, a eutanásia, a saúde mental e o tráfico de influências são exemplo disso. Vou tentar explicar os quatro exemplos por motivos diferentes. Por um lado, o aborto e a eutanásia andam praticamente de mãos dadas. Quem defende a liberalização de um, tende a defender a do outro. Dois temas que as sociedades passadas eram mais conservadoras, mas que agora há quase um senso comum imposto autoritariamente de que quem defende os dois de forma liberal é que está no lado certo. Mas o fundamental a retirar é que as opiniões mudaram de uns tempos para o outro. Dois temas que estavam arrumados na gaveta por tantos séculos, mas que, até tão pouco tempo, começaram a ser temas de bandeira no panorama político e que certamente continuará a ter debates acesos.

Mas, se consideramos o aborto e a eutanásia dois temas recentes a serem abordados, então temos de nomenclar a saúde mental e o tráfico de influências como “recém-nascidos” no seio da sociedade. Mais dois temas que apareceram com o tempo, (na realidade sempre existiram, mas não eram mediáticos), mas que diferem na importância atribuída pelos executivos e pelos representantes de cada parlamento e na forma como são aplicados os mecanismos.

O caso da saúde mental é um tópico que todos concordam na sua importância e que apenas discordam, pontualmente, no planeamento e nos meios para a atingir. Não é, de todo, uma questão que divide o espaço ideológico ao meio, como vimos, anteriormente, com os temas do aborto e eutanásia. Já o tráfico de influências na saúde (nepotismo), que é mais um tema recente, ao invés de fragmentar o espaço ideológico ao meio (direita – esquerda / conservadorismo – progressismo), cria uma dicotomia entre elites de poder e as grandes massas (povo). São muitos os casos conhecidos, uns revelados na comunicação social, outros conhecidos no meio social privado de que certos indivíduos conseguem ter acesso a tratamentos e benefícios por meio de influências políticas e de poder indevidas, desde o Presidente da República (no sentido literal, com o conhecido caso das Gémeas luso-brasileiras), a ministros e autarcas até às famílias com grande capital.

E é com esta deixa da linha anterior que entra o terceiro e último grande fator – o dinheiro. A Saúde além de ser um tópico influenciado pelo tempo e pelo poder, é também, influenciado pelo dinheiro. O mundo, no século XXI, é movido a dinheiro, não há como fugir à realidade. O problema reside quando a Saúde deixa de ser uma prioridade moral e passa a ser um puro negócio.

“O problema reside quando a Saúde deixa de ser uma prioridade moral e passa a ser um puro negócio.”

Um relatório elaborado por um analista do Goldman Sachs, intitulado “A Revolução do Genoma”, aconselhou as empresas farmacêuticas a considerarem a produção e venda de medicamentos que tratam, mas que não curam doenças. Qual a justificação? A resposta não podia ser, ao mesmo tempo, tão simples e tão sombria – tornar os medicamentos tão eficazes a ponto de erradicarem uma condição ou doença não é um modelo de negócio lucrativo a longo prazo. É triste perceber o ponto a que a humanidade chegou, que ao invés de ajudar o próximo e ter empatia, apenas quer saber de quantos dígitos tem no seu portfólio.

Em suma, a Saúde é uma preocupação constante de qualquer sociedade que se considere desenvolvida e responsável, no entanto, é claramente visível como os três grandes fatores – tempo, poder e dinheiro influenciam nas decisões tomadas no dia a dia. É assim importante, acima de tudo, perceber que a Saúde tem melhorado ao longo do tempo e que problemas atuais não significam que serão problemas futuros. Assim como também é importante compreender que o jogo de poderes é uma teia enorme enraizada no país, que vai desde a sociedade civil ao governo, passando, também, pelas empresas detentoras de grande capital e que se não for destruída pelo altruísmo e compaixão, tornar-se-á, possivelmente, num caos moral e civilizacional.