Estávamos em março, quando assistimos à metamorfose do nosso instagram. O feed encheu-se de publicações a cancelar os festivais de verão, para os quais já tínhamos bilhete comprado, e de stories de concertos live, que trocavam o palco pela sala de estar.

Dia 18 de março: Portugal entrou em Estado de Emergência e o país parou. De uma maneira ou de outra, com maior ou menor intensidade, é difícil encontrar um setor que não tenha sido afetado por esta crise de saúde. No entanto, a cultura é, infelizmente, de forma indiscutível, um dos setores que mais sofreu e ainda sofre com esta calamidade.

Quando se analisa este setor, torna-se imperativo distinguir duas dimensões do mesmo que, por sua vez, sofreram efeitos quase opostos quando o país ficou de quarentena. Por um lado, as atividades culturais que têm por base um local físico (venue-based) como, por exemplo, as artes performativas, a música ao vivo e os festivais, severamente atingidas pelas medidas de distanciamento social, resultando numa diminuição abrupta das receitas e num aumento dos layoffs dos vários agentes. Por outro, as plataformas criativas online, que acabaram por lucrar com o aumento da procura de conteúdo disponível através de streaming, num momento em que estávamos entre quatro paredes, a precisar das artes mais do que nunca.

Assim, ao longo destes parágrafos, irei analisar o que aconteceu e questionar sobre o que irá acontecer, apresentando mais perguntas do que respostas, uma vez que, durante os últimos meses, a palavra incerteza ganhou outro significado.

Falemos de forma mais detalhada daquela que inspirou o título deste artigo: a música. Estamos em 2020, na era do streaming e, por isso, as principais fontes de receitas dos artistas musicais são as tours, a venda de merchandising e as parcerias com marcas. Ora, o trocar dos mosh pits pelos lives no Instagram causou de facto uma severa diminuição nas receitas deste setor. E, se a capacidade de adaptação e reinvenção da indústria musical foi extraordinária, o problema da monetização do conteúdo digital tornou-se o elefante na sala. Assim que a quarentena foi anunciada, os conteúdos e formatos foram rapidamente adaptados, organizaram-se campanhas e agregaram-se esforços. No entanto, a dúvida permanecia: como se monetiza uma experiência digital, quando a audiência nada num mar de infinitas possibilidades gratuitas?

Um exemplo de sucesso foi a performance virtual do artista de Hip Hop alternativo, Duckwrth, gravada num ringue de patins histórico de Los Angeles e transmitida em direto através do seu site. Para aceder a esta transmissão era necessário comprar um bilhete e o espetador podia interagir com o artista e com os outros espetadores através de um chat. Será esta a nova blueprint para o lançamento de um álbum online?

De facto, o aparecimento deste vírus veio testar a estrutura das instituições culturais, acelerar o processo de passagem para o digital e questionar se esta onda de criatividade online é apenas uma medida temporária ou o futuro da cultura. De qualquer forma, ao vivo ou através de um ecrã a cultura permanecerá, permanece sempre.