A explicação tradicional sobre a origem da moeda, amplamente difundida pelos manuais de economia e baseada no pensamento de Adam Smith, sugere que a moeda surgiu para resolver os problemas da troca direta. De acordo com essa visão, antes da moeda existia um sistema de mercados onde as pessoas trocavam bens entre si, mas a ineficiência desse modelo teria levado à criação de um meio de troca universal, que evoluiu para sistemas metálicos e, posteriormente, para moeda fiduciária. No entanto, essa explicação é considerada um “mito da permuta”, pois não há evidências antropológicas que o confirmem.

Estudos mostram que as economias antigas não eram baseadas na troca direta entre indivíduos desconhecidos, mas sim em um sistema de reciprocidade e crédito. Em comunidades primitivas, as pessoas não realizavam trocas imediatas, mas ajudavam-se mutuamente com a expectativa de que o favor seria retribuído no futuro. Por exemplo, se alguém precisava de uma galinha, pedia a um vizinho, e a retribuição poderia vir posteriormente na forma de outro bem ou serviço. Muitas dessas “dívidas” eram registadas em tábuas de barro, demonstrando que o conceito de contabilidade e de moeda abstrata já existia antes da moeda física.

Além disso, a troca direta ocorria principalmente entre estranhos ou inimigos, e não dentro da própria comunidade. Isso reforça a ideia de que os mercados, como os conhecemos hoje, não surgiram de um processo natural de trocas espontâneas. Em vez disso, as primeiras formas de moeda eram “moedas sociais”, utilizadas não para transações comerciais, mas para estabelecer e manter relações sociais. Essas moedas tinham funções como facilitar casamentos, evitar conflitos, pagar tributos ou garantir a coesão da comunidade. Exemplos incluem conchas, metais, penas e outros objetos simbólicos usados para fins cerimoniais e políticos, e não para o comércio diário.

“The State Theory of Money” de Georg Friedrich Knapp, vinculada ao Chartalism, propõe que a moeda não surgiu do mercado, mas do Estado. Segundo esta visão, a moeda foi imposta por autoridades governamentais como meio de pagamento de impostos e obrigações oficiais. O Estado determinava a unidade monetária e garantia o seu valor por meio de leis e políticas fiscais. A moeda surge como uma ferramenta de controlo económico e organização social.

A moeda surge como uma ferramenta de controlo económico e organização social

Esta teoria também sugere que os mercados e a moeda não se desenvolveram separadamente, mas de forma interdependente. Sem um meio de troca padronizado imposto por uma autoridade central, os mercados não poderiam ter surgido como os conhecemos hoje. Isso contradiz a explicação neoclássica, que defende que a moeda foi uma evolução natural da permuta.

Portanto, as evidências históricas e antropológicas indicam que a moeda não foi criada para solucionar problemas de troca direta, mas para atender a necessidades sociais, políticas e fiscais. A ideia de que os mercados existiam antes da moeda e que esta surgiu apenas para facilitar o comércio é contestada, pois, na verdade, a moeda e os mercados evoluíram juntos, moldando-se de acordo com as estruturas políticas e económicas de cada sociedade.