Gonçalo Ferrinho
Artigo exclusivo do site, publicado em October 2026
Francamente, a malta anda muito acelerada. Mesmo muito acelerada. É um andamento desmedido. Sem qualquer cuidado pela estagnação alheia e extremamente prejudicial à minha indolência orgânica. Portanto, isto é perigosíssimo. O pessoal, ao avançar com toda esta pujança, cria uma aerodinâmica manhosa que, ao passar por indivíduos bem marinados em inércia, acata-os, desbobina-lhes as ideias todas.
E sim, eu até consigo perceber que isto de pensar possa vir a ser muito giro. Mas fazer coisas giras ainda está circunscrito ao meu livre-arbítrio. E claro, impossível não esquecer que o mundo das cogitações dá trabalho, mas daqueles mesmo hercúleos, do estilo: tentar perceber se a Betty Grafstein tem um pescoço muito, mas muito pequeno ou se é só marreca. Doravante, como a palavra “ortopedia” tem demasiadas vogais e a minha terapia da fala nunca surtiu verdadeiro efeito na pronúncia dos ditongos, afasto-me desta realidade gourmet, arrumando-me num cantinho, fazendo de tudo para não estorvar os suprassumos da sapiência. Se a lei do “ceteris paribus” não fosse só algo para encher chouriços nos exames de macroeconomia, estaria tudo bem. A sério, eu até gosto de ficar em perninhas à chinês- é confortável, e sentadinho não faço mal a ninguém. Todavia, isto não funciona assim. Logo, vou-me indignar.
Portanto, isto de ser o maior da aldeia tem muito por onde se pegar. Pode ser através de um posto profissional pomposo, de ser um “ser” dotado socialmente ou, por vezes, consequente de fortúnios genéticos. Falando assim pragmaticamente, parecem objetivos alcançáveis. No entanto, a não ser que sejam o Chico da Estribaria, não o são. Consequentemente, fazendo a conversão para a realidade epicurista em que estes alienados residem, sirvo-vos um bom prato de ressabiamento frutado, com uma leve infusão de aromas satíricos:primeiro, para de tratar o teu estágio de verão como o apogeu profissional, a única coisa de “risk-assessment” que aprendeste foi perceber se chegavas a tempo do comboio das 17h30 quando te distraíste a brincar no Excel até às 17h, no cubículo a que te ensinaram a chamar “work-office”.segundo, ir ao “Lust” dançar umas versões remixadas de música brasileira não é sinónimo de “networking”, porque de “connects” só ficaste com o do segurança que te gentilmente escoltou quando tiraste a camisola, como a hipnotizante Rita Lee já te havia sussurrado ao ouvido para o fazeres;por fim, e esta é elementar- polos da “Ralph Lauren” são catitas e põem-te jeitoso para o batizado da tua prima Vitória, mas tens tanto de finório como eu de talento para a escrita.
Assim sendo, e após todo este azedume, está na hora de chamar para jogo a minha filosofia devidamente matarruana. Ok, eu percebo, queres ser um porreiraço dinâmico. Mas sê-lo deixar-te-á completo? Arriscar-me-ia a dizer que não. Como criaturas simples, funcionamos em prol dos stocks de amor. Muito recebido indica muito dado, e vice-versa. Consequentemente, prestar atenção a algo, estimar e amar, por muito ordinário que seja, transforma. E é aqui onde reside o verdadeiro molho! É neste oásis culinário onde o arroz para de ser insonso e torna-se aprazível ao palato, sendo a vertente malandrinha opcional, mas totalmente recomendável. Assim, o fazer nada, por muito que tonifique a inércia da pessoa, não atrofia, edifica. Se, ao espremer o ato cair pingas de algo puro, vence-se. E num jogo tão difícil quanto este, fazer pouquinho e ganhar, sendo-se apenas, é uma vitória valiosa.
Em suma, fazer não indica necessariamente sentir. E sentir é uma arte. Contudo, isto de apreciar arte é, ironicamente, uma arte por si só muito complexa. Consequentemente, na minha visão humildemente javarda, acredito que o melhor começo poderá estar em, para já, deixar tudo bem quietinho. E agora finalizando, vocês exclamam: “Ó Ferrinho, tu claramente és um gajo que aprecia muito bem o ato de não fazer absolutamente nada e estás aqui a tentar passar-nos um atestado de burrice para ver se te sentes melhor com a tua solidão!”, ao que eu respondo citando as palavras do meu grande amigo Nosso Senhor: “com todo o respeito, o senhor é uma besta- Mateus 2, versículo 17”* .
Referências:
*Gato fedorento- Entrevista a padre transexual
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