Andreia Aguiar
Artigo exclusivo do site, publicado em Julho de 2026
À medida que as tendências percorrem os seus ciclos e as modas que foram anteriormente consideradas datadas voltam à ribalta, os looks de maquilhagem mais ousados sucedem às tendências de pinturas mais discretas, com as suas cores vibrantes e designs complexos.
A sombra azul é uma dessas tendências, tendo a sua perceção e significado sofrido um número de alterações ao longo do tempo. Trata-se de um clássico da beleza ousado, popular ao longo de várias décadas, desde a icónica Elizabeth Taylor até Cyndi Lauper, que transformavam as suas imagens nas suas próprias revoluções visuais. Sendo assim, dependendo de quem a usa e quando, o azul pode adotar inúmeros significados diferentes.
No antigo Egito a coloração azul da maquilhagem era usada tanto por mulheres como por homens. Tinha a função de proteção divina, acreditando-se que esta cor afastava o mal e protegia os olhos do ambiente agressivo do Nilo. No caso de Cleópatra, o seu significado estendia-se para além de uma simples declaração de beleza, sendo que se trataria também de um instrumento de exaltação do seu poder político e espiritual.
Em contraste, na era Vitoriana, esta coloração passa a ser algo da mulher e ganha uma conotação de tabu. Nesta sociedade conservadora fortemente influenciada pela Igreja, um rosto “natural” era o standard da virtude. Devido à sua incapacidade de passar despercebido, o azul ganha desconfiança social, passando a ser associado a classes marginalizadas e a atrizes. Esta reviravolta mostra assim como o significado da maquilhagem é diretamente moldado pelo seu contexto social e moral.
Apesar desta mudança drástica de significado, é a sua origem histórica que vem a indiretamente solidificar o lugar da sombra de olhos azul na história da maquilhagem contemporânea. Elizabeth Taylor não só usava este pigmento no seu dia a dia, como em 1963 o utilizou ao interpretar Cleópatra no filme do mesmo nome. Neste contexto, a maquilhagem de Taylor reclama a sua dimensão feminina poderosa e astuta que enfatiza o fascínio dos líderes romanos aos olhos do público. Esta personagem serve assim como rosto da mulher influente e perigosa, traduzindo-se socialmente numa época de renovação e glamour para a maquilhagem na qual as mulheres se distanciavam de tendências conservadoras. O azul deixa de ser tabu para simbolizar a astúcia feminina durante a segunda vaga do feminismo.
Desde então, maquilhadores de cinema continuaram a recorrer à ousadia da sombra azul para revelar certos traços da personalidade das suas personagens ao público. A sua natureza chamativa torna-a uma forma elegante e clara de dar a conhecer a psique e as jornadas das personagens femininas do cinema e da televisão. Esta energia manteve-se durante a década seguinte, quando movimentos associados a estilos musicais como jazz, blues e rock’n’roll começaram a ganhar protagonismo, o olho azul tornou-se num dos seus símbolos de modernidade e independência.
Posteriormente, o significado vitoriano volta a tomar relevância, ainda que reclamado pelas comunidades com uma conotação mais positiva, associando-se agora à performance Drag e à história LGBTQ+. Neste contexto, a utilização cinemática mais icónica da sombra de olhos azul dá-se no filme Cabaret (1972), fazendo parte do visual característico de Sally Bowles, uma dançarina americana em Berlim dos anos 30. Através da Sally e das outras personagens, o filme explora a forma como a vibrante cena gay e a cultura boémia da cidade coexistiram em paralelo com a ascensão dos nazis, num clima de apatia generalizada e de indiferença face ao perigo iminente do totalitarismo.
Esta cor mantém-se relevante durante o resto do século, sendo uma sombra de olhos azul elétrico e saturado utilizada por ícones da música como Cyndi Lauper e Prince para continuar a desafiar os ideais de género por parte da comunidade queer e da mulher contemporânea.
Nos anos 90, passa a ser geralmente associado à cultura pop adolescente. No cinema, é vista em certos contextos como de mau gosto, associando-se a estereótipos da classe trabalhadora de reduzida educação formal, no entanto mantém a sua força no cinema indie.
Já no século XXI, apesar de a sombra azul não ser uma opção habitual para o dia a dia, tem vindo a ressurgir no Tiktok e Instagram. Na era moderna, usar o azul ilustra a priorização de autoexpressão, individualidade e criatividade em vez daquilo que mais favorece a beleza.
Torna-se assim claro que a sombra de olhos azul não se trata de uma mera escolha estética, tomando uma nova dimensão ao refletir tensões sociais ao longo dos anos. Seja o seu significado sagrado ou tabu, acaba sempre por ter uma intenção de empoderamento e confiança por parte daqueles que a usam.
Em suma, a sombra azul persiste para além de modas efémeras, oscilando entre virtude divina e transgressão das normas, tabu vitoriano e afirmação queer. Exemplificando assim o modo como a maquilhagem conecta humanos pelos tempos, desde o Antigo Egito até aos dias de hoje.
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