O ermita senta-se confortavelmente no rochedo mais próximo, encontra-se no topo do monte onde o céu e a terra acabam por se tocar. Espera pela sua audiência, não veio de batina, que aos ermitas nunca se deram batinas, mas espera que o réu compareça, ou réus, ele próprio não sabe. “Sois múltiplos ou um só? Nunca entenderei essa parte. Usardes tantas dessas máscaras, tendes tantos nomes, tantas ações e milagres que nunca entenderei. Mas encontrai-vos sob audiência deste mesmo ermita que vos fala, que subiu e trepou só para vos conseguir alcançar, que à chuva se senta só para falar, por cima do trovão e vendaval, com Vós” vai vociferando o velho ermita para os céus que se partem e rasgão em clarões de luz, não teme a Natureza pois o seu propósito é, para si, superior.

“Não sei no que acredito, não nego que sinto em mim algo, mas Vós sois tão complicados! Em tantas partes do mundo tendes nomes diferentes, ou múltiplas faces, pregardes coisas sempre tão diversas, haveis mostrado Vossas habilidades divinas de tanta maneira, mas eu, pobre ermita, duvido. Enviai-me, se desses fordes, chicotadas infernais por duvidar, mas Vós, se Vós aí estareis a ouvir-me do topo deste monte, sois os culpados de questionar, dando-me me olhos que para além de verem, observam, vão além, nunca saciados.” O silêncio instala-se no topo do monte escolhido pelo ermita, a chuva cessa e os trovões só ao longe se fazem lembrar. Não obtém resposta, nada de divino estende a mão ao nosso ermita. Ou ninguém o ouve, ou todos escolhem não ouvir.

“Este julgamento não vem de ódio, ó magnânimas criaturas que nos céus habitais, vem de questionar. Vem de uma revolta que se encontra no meu coração e neste corpo, onde a alma já não tem descanso por tanto que o mundo passa, estais Vós adormecidos? Escolheis não olhar então para o que criardes? Se sois Pai, porque deixaste assim teus filhos? Se não fordes Pai, mas múltiplos criadores de tão fascinantes criaturas, já não Vos regalamos com o entretenimento devido? Ou são estas guerrilhas e ódios que alimentam tal infernal máquina? Não me levardes a mal, Pai, que eu para Ti com fascínio olho. Haveis enviado aquele que se senta à tua direita e a ele me curvo, mesmo com costas que curvadas já são, não por vassalagem, mas por respeito. Que pobre divina criatura que agora deve fitar o seu rebanho com tremenda pena, que veio e espalhou por tudo onde passou a paz e o amor, a humildade e compaixão.” O ermita ergue exasperadamente os braços para os céus, chora uma singular e perdida lágrima a quem não dá destino, deixando-a só cair sobre o monte que subiu. Instala-se um total silêncio no tribunal do nosso ermita, a cabeça do próprio tornou-se agora a tempestade que anteriormente atacava o monte.

“Sabeis Vós o que se passa no sopé deste monte? Eu, que o subi, sei o que vai lá em baixo. Da terra de onde venho, se aqui me encontrassem, tão longe de tudo, por louco me tomavam. Mas sabeis o que anda a criatura, Vossa criação, a fazer? Sofre Prometeu o castigo eterno e andam os Homens a ser bestas com o fogo que Lhes destes. Pois sim, Ó Magnânimas Forças, anda o mundo virado do avesso. Não seguro, como aquele príncipe dinamarquês, a caveira do bobo e questiono a vida e a morte, mas seguro o mundo aqui, nesta enrugada mão, para Vossas Excelências o observarem de perto. Anda o Homem a pôr o lucro acima do seu irmão, crê mais neste ídolo digital e de papel do que em Vós e ainda, muitos deles, usam, batendo efusivamente em peitos ocos, o Teu nome, Pai. Vós que quisestes o amor entre eles, olha como se matam e esfolam seja por este poder brilhante que é o dinheiro, seja por terras que acreditam ter direito. Olha como o ódio os cega profundamente, não vêm nada para além de si. Filho do Pai, perdoa que o teu rebanho por ai anda, bonito é ver como se segura e tenta encontrar o caminho nesta tempestade, mas olha a vara que por aí sobe a invocar o Teu nome, de podridão se lhes enche a boca e o coração lateja de ódio!” O coração do próprio ermita acelera para além do que o que a sua natureza o permite, não lhe resta muito tempo para a sua audiência, agarra-se, então, à forca que lhe resta.

“Se não me quererdes ouvir, ou à porta errada vim bater, deixai-me, então, falar para o que vejo abaixo deste monte. Ó minha terra, que haveis feito? Porque nos deixamos levar por estes porcos de duas patas que prometem paraísos que nem ao Diabo lembram? Porque caímos no sistemático ódio opressor? Não sabeis olhar para o lado? Olhais para máquinas que brilham e cintilam sem alguma vez pensar que essa máquina substituir-te-á. A máquina não será para vós, será para outros elevarem o mundo a um paraíso com multibanco à entrada, será para oprimir o mágico dom que ainda temos de pensar, de criar, de imaginar algo puramente humano. E ainda mais importante, não olhais para as vossas mulheres? Olhais somente com ódio e repugnante luxúria? Não sabeis que delas vindes e a elas deveis tudo? Para lá, juntai-vos às varas que seguem, vós que por força as submetem, em palavras as rebaixam, em valores as esquecem. Vós não serdes criaturas que a força divina possa ter criado, sois ódio, puro e duro. Pobres de vós que ouvem esses profetas de gravata, aceitando como verdades todas essas mentiras que em populismos se encontram encobertas. Pobres de vós que pensam ser puros, envoltos em nacionalismos e auras alegadamente divinas, que pensam ser o pico da humanidade, o mapa para um futuro melhor. Está de mofo coberto, tal mapa, não sois vós os primeiros que pensam assim, mas quem uma vez cai, nem que de uma cadeira seja, novamente voltará a cair. Porque ainda tenho esperança, Ó minha terra, tenho honesta e forte esperança de que sabeis ser melhor. Eu vejo a vossa humildade, o vosso carinho, o vosso amor, não só no rebanho do Divino, mas pelo mundo tudo, ainda vejo essa luz de esperança, a vós vos agradeço” O ermita acaba por cambalear até ao chão, os seus robes envolvem a pequena figura agora colapsada no seu tribunal divino.

“Antes de findar, a Vós me dirijo uma última vez, Ó Vós que habitais nos céus. Não vim no papel de profetizar nada a ninguém, fosse a Vós, fosse ao sopé deste monte. Vim no papel de um ermita que com o mundo andava desajeitado. Não me tomai por arrogante por até aqui subir só para vos alcançar, mas também do alto deste monte (olhe, Divino, que daqui vejo a minha terra, como espero que não me repugnem) para o resto do mundo gritar, atirar a tudo e todos esses pecados, se esse nome se dá aos mais vis dos atos, que andam a encher o mundo. Mas se aí estardes, Magnânimas Criaturas, olhai por eles, olhai por aqueles que tentam mudar o curso deste aterrador navio que Vos apresentei. E vós, companheiros da mortalidade, olhai por vós próprios, olhai bem uns pelos outros, ficais unidos, fortes e com um apaixonado desejo de dar ao mundo o futuro que merece. Que lindas são as flores no topo deste monte, mas tenho saudades das flores da minha terra. Ó Divino, posso ver as flores da minha terra?”