Opinião de Catarina Moreira
Também incluído no FEPIANO 46, publicado em Março de 2022
Desde sempre que a definição de arte constitui uma razão de discórdia, e a evolução artística não facilitou a tarefa. Quando para muitos era uma sugestão, com limites liberais, para Tolstói não o era. Este debruça-se sobre o tema no livro “O que é a arte”, do qual retemos que qualquer obra que infete o observador de algum sentimento universal que o artista pretenda comunicar é considerada “boa arte”. Como se veria o rap do Porto por esta lente?
Afrika Bambaataa estabeleceu quatro pilares de hip hop: rap, DJ, breakdance e graffiti. O rap é o género musical marcado pelo discurso rítmico sobre instrumentais, e é altamente influenciado pelo contexto geográfico no qual é criado. E se do Sul dos EUA surge o Crunk, do Oeste surge o G-funk, espelhando as características culturais envolventes, também do Porto surge um rap único.
Na caracterização de uma vertente artística viva e em constante mutação, como é o rap do Porto, corre-se o risco de cair em generalizações injustas e resumos precipitados: assim, tomemos a seguinte análise como uma visão generalista do ouvinte que se entrega ao rap do Porto, pela primeira vez. O primeiro aspeto identificável no rap portuense é a procura honesta da representação da realidade. Da mentalidade reivindicativa e introspetiva inerente à cidade do Norte e da intensidade das pessoas que lhe dão vida, resulta um rap cru, sem pudor nos assuntos escolhidos e leal à verdade sobre os mesmos.
Note-se a ausência de artifícios na exposição da realidade, esta é muitas vezes pesada, com uma atmosfera agressiva. Fala-se sobre as dificuldades sentidas, crime, drogas, e de tudo que seja mais difícil de digerir. As batidas fortes, as letras explícitas, o flow violento, acoplado, inevitavelmente, do sotaque carregado e calão portuense, permite que o ouvinte sinta tudo o que advém destas realidades, sem que tenha que passar por elas. Um ótimo exemplo é a ode ao vandalismo presente em várias faixas, nas quais a posição pessoal do ouvinte face à ilegalidade é irrelevante, já que o sentimento subjacente é dos mais basais e intrínseco ao Homem, o sentimento de violência, de ódio, de Thanatos, como nos diria Freud. Se para uns este rap é a sua voz de rebelião, a revolta pessoal contra o poder, para outros nada de pessoal tem, é o meio para direcionar este sentimento inevitável.
É na aliança entre a honestidade brutal da transmissão de sentimentos, e a universalidade dos mesmos, em que reside a grande conquista do rap do Porto. Os 3 minutos e 40 segundos de catarse do Id, a permissão do Superego para que, envolto pela segurança da apreciação de arte, se sinta tudo, mesmo o que de mais perigoso. Os 3 minutos e 40 segundos de pura adrenalina que fornece a cada ouvinte, mesmo aos estudantes e escritores em jornais universitários. Os 3 minutos e 40 segundos de vulnerabilidade verdadeira e sem remorsos.
Passasse Tolstói pela cidade Invicta, será que nos diria que o rap do Porto é “boa arte”? É difícil prever o que diria o crítico acérrimo, que a poucas das suas obras consagrava tal título, mas mais difícil é negar o sucesso do rap portuense em derrubar o ouvinte com meia dúzia de barras, fazendo-o sentir o que de outro modo lhe seria inacessível.

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