“Que coisa não pode esperar-se de um território com luz eterna? Talvez eu descubra por lá o espantoso poder que atrai a agulha da bússola; e possa levar a cabo mil observações celestiais […]”. “Eis os meus fascínios, e bastam para conquistar todo o medo do perigo ou da morte e instigar-me a iniciar esta fatigante viagem […]” – Victor Frankenstein de Mary Shelley

Quando termina o verão, assombra-se no ar a passagem para o equinócio de outono e todos os nevoeiros que este carrega. A estação onde apenas as folhas perenes nos vigiam do alto, a estação que guarda vários contos misteriosos. Começando pelo Magusto, à própria noite de Halloween ou até o Dia De Los Muertos. Para uns, o terror do início das aulas, para outros, tradições obscuras. Caveiras, teias de aranha e abóboras esculpidas com perucas loiras de palha, embora, talvez, este último pormenor seja um toque pessoal. Contudo, uma lenda diz que o Halloween marca a noite em que se abre uma fissura para o sobrenatural, onde vagueiam demónios, espíritos e fantasmas coléricos cuja única maneira de escapar é se te mascarares como eles: pode ser que passes despercebido. 

 Fui algumas vezes a uma aldeia com rampas sinuosas de alcatrão, eucaliptos de um verde deslavado na álea noturna que quase se tocavam entre as bermas. Não foi muito longe de uma serra com eólicas que tive a oportunidade de as ver em pessoa e perceber a sua magnitude, do tamanho de gigantes. Sobre essa serra somos enredados pela aragem fresca e um sol delicado e fraco, e pelas redondezas existem avisos da presença de lobos, que observas da mesa de piquenique barulhenta, precisamente quando uma batata frita estaladiça de pacote te corta a língua como um mau presságio da tabuleta dos predadores… ou, então, como um castigo vindo da intervenção no espaço físico do pecado mortal da gula, que decidira transfigurar-se, para te trazer bom senso. Quando regressamos, sobre um beliche, decidimos distribuirmo-nos num círculo, pois, com o entardecer, enunciara-se uma tempestade violenta lá fora e a ventania tornava-se um assobio no soalho da entrada, não convidava a passeios depois do jantar. As sombras da lanterna de um telemóvel velho, mesmo por baixo do queixo, revelavam um semblante. As quatro contávamos histórias sobre a aldeia à vez, algumas ditas e outras inventadas no improviso. Mas, quando chegou a hora de dormir, o frio dessas histórias não largava os nossos braços, como se estivessem prestes a tornarem-se reais, uivares que podiam ser da fauna ou apenas o som de árvores a conversar. Prendíamos os olhos com força para chamar senso e lucidez, mas a ideia de que estes pudessem entrar ali, com um desejo âmago de desfazer-nos, agarrava-se às nossas mentes, tal como os mexilhões aos rochedos da praia, contra todas as rajadas da maresia.

 A sobrancelha arqueava-se cada vez que o lápis rodava lentamente com um empurrão invisível para o “sim”, depois de alguém sussurrar com expectativa: “Estás aqui?”. Encostava-me para trás a avaliar, a verificar se alguém soprou para nos enganar. Depois, relatavam com tom sério e convicto a visão de bonecas com vida própria e de maus intentos, sedentas de sangue, a saírem pelo ralo do lavatório da escola. Acrescentavam ainda que sabiam da existência de uma sociedade secreta, cautelosamente organizada, que convocava criaturas durante a noite, entre as panelas da cantina, e escondiam as provas dos rituais numa porta pequena que estava sempre fechada.

As bonecas amaldiçoadas como Annabelle, M3GAN ou tantas outras, nascem do cultivo pavoroso da imaginação, apenas para nos convencerem de que o brinquedo esquecido no canto do quarto pode decidir mexer-se quando apagamos a luz. 

Já fecharam as bonecas nas gavetas para impedir que ganhem vida durante a noite e se vinguem do corte de cabelo que lhes deste nessa manhã? Ou que se vinguem do braço que perderam quando tentaste testar a sua anatomia e verificar se o braço rodava a 360 graus? As bonecas possuídas não entendem a notoriedade de tais atuações, tudo experiências curiosas, apenas para priorizar a aprendizagem.

O medo nasce do desconhecimento e, por vezes, isto abre espaço para o sobrenatural, para a fantasia, o género embriagante da inovação, da criatividade. Nunca sabemos a verdade absoluta, nem sequer temos a certeza da individualidade deste desconhecimento. Se, por acaso, amanhã acordássemos e a água deixasse de ferver à mesma temperatura, se o musgo não nascesse mais na sombra e se os oceanos começassem a flutuar poderia continuar esta lista, mas sentiríamo-nos amedrontados, não porque avistamos um monstro, mas porque as leis da natureza, que sempre nos pareceram constantes, teriam deixado de o ser.

Um desses fenómenos que parecem imutáveis é o campo magnético da Terra. Não o vemos, mas é gerado pelo movimento do ferro e do níquel líquidos no interior do planeta. Em janeiro de 2025, a National Geographic noticiou que o Polo Norte magnético se está a deslocar. Lembro-me de a minha professora de Geologia explicar a possibilidade de uma inversão completa, enquanto observávamos um rifte no fundo do oceano, onde os minerais da lava registam a direção do campo magnético ao solidificarem. As inversões dos pólos já aconteceram no passado, embora à escala geológica. Quais seriam os verdadeiros impactos se voltassem a ocorrer? Seriam apenas espécies desorientadas e possíveis problemas nos satélites, ou poderiam estar em causa consequências maiores, talvez extinções em massa? Não sabemos. Nem a ouija, nem as bolas de cristal mais resplandecentes e enceradas, o dirão. Aqui, a ciência e o terror cruzam-se quando imaginamos que aquilo que sempre julgamos constante possa deixar de o ser.

Estar preocupado com os augúrios deste fenómeno poderá ser equivalente a estar preocupado com tsunamis ou com erupções vulcânicas: nada podemos fazer, exceto talvez lermos um bom livro, como o clássico de Frankenstein. É a leitura perfeita para esta altura do ano, uma narrativa gótica e viciante que traz consigo um prenúncio gélido do inverno e que nos ensina tanto sem darmos conta. 

A experiência disse-me que, por enquanto, as bonecas continuam imóveis na prateleira, contudo, o planeta inteiro esconde fenómenos muito mais extraordinários e, enquanto assim for, acredito que o medo perdurará. Pelo lado positivo, podemos desfrutar da imaginação enquanto não conhecermos a verdade absoluta, se algum dia a soubermos.