Martim PereiraOpinião de
Também incluído no Online exclusive, publicado em October 2026
Os Homens são frutos do seu tempo, e, analisar as ações dos nossos anteriores sob moldes contemporâneos é um erro cronológico, um anacronismo. Esta mesma frase é, ela própria, anacrónica, já que nós já não nos referimos à humanidade como “Os Homens”. No entanto, percebemos perfeitamente o que quer dizer, pelo que, na altura, a discussão intelectual era tida única e exclusivamente pelo sexo masculino, e, quando se dirigiam aos “Homens”, dirigiam-se na realidade ao público. A frase em si padece de atualização, mas o seu sentido mantém-se. Mantém-se porque conseguimos fazer o devido enquadramento cronológico e porque incide sobre a única constante ao longo da história, a natureza humana. A nossa capacidade de nos identificarmos com personagens literárias escritas há séculos diz-nos isso mesmo, que ainda que os atos nos sejam estranhos, a emoção por trás é-nos consonante. Percebemos a sua paixão, a sua inveja, o seu medo da morte, porque não há câmara criogénica que nos permitisse escapar-lhes. Ainda que o materializar dos seus desassossegos fosse diferente nos dias que correm. Dorian Gray injetar-se-ia com colagénio, e Lord Henry seria um influencer fajuto.
Mas o que muda com o decorrer dos séculos? Ficaram as pessoas assim tão mais sensíveis ou boçais com o decorrer dos anos? Não me parece. Há alguma predisposição para considerar a geração Z particularmente conservadora e ignorante. Mas, não penso que estes jovens sejam necessariamente mais conservadores ou ignorantes que os seus pais, em muitos aspetos, são até um upgrade. Existe sim uma maior expectativa para com eles, consequente da generalização do ensino secundário, e, até certo ponto, do ensino superior. Não se trata de aversão, mas sim de desilusão.
Os seres humanos estão iguais, o que mudou foi a conjuntura, a demografia, as oportunidades. Quando se diz que Portugal há 50 anos era um país diferente, essa metáfora tem um pingo de verdade. O que é um país diferente senão um local onde a cultura e estruturas social e económica são diferentes? Nas palavras de L.P Hartley “O passado é um país estrangeiro, as coisas lá são feitas de forma diferente”. Ainda que a parcialidade chauvinista nos diga o contrário, o Portugal de há 50 anos é-nos tão estrangeiro como a Europa de Leste nos dias de hoje. E, essa sobreposição do anacronismo com o erro geográfico é tão mais eclipsante quanto mais tempo os países estrangeiros estiverem entregues ao colete de forças da ditadura, estática no tempo. Enquanto as sociedades ocidentais se romantizaram no pós-guerra, a Federação Russa nunca saiu da guerra fria, e o nosso choque com a invasão à Ucrânia vem desse exato anacronismo maturado. A nossa geração nunca sequer imaginou que as fronteiras do globo pudessem ser maleáveis, e essa homeostase era-nos sinónimo do estado de direito e da democracia. A sua deterioração leva-nos a questionar a sua validade.
O mais assustador do anacronismo, como com qualquer viés, é quando tem a semblante de ser logicamente válido, principalmente quando aliados a outros vieses. Outros vieses como o racismo. No seu mais simples e conspurcado, o racismo é o desprezo pelo contexto, e a justificação pela cor de pele. Análogo ao anacronismo, esquece que certos bairros são autênticos países estrangeiros em determinadas cidades, e, a pobreza, tal como a ditadura, é um colete de forças.
Há tempos vi uma reportagem especial sobre o opositor de Benjamin Netanyahu, Gadi Eiseknot. Quando entra em primeiro plano a sua estratega de comunicação, uma senhora com um aspeto corporate calculadíssimo, eu, na minha mentalidade anacrónica ocidental, estava à espera de ouvir um discurso repreensivo da guerra. Para minha surpresa, a senhora com o ar mais PR trained possível, qualificou os proveitos de guerra como “mal aproveitados” e que haviam mais dividendos a serem colhidos de terem expandido o seu território até “onde ele devia estar”. Choque, por uns segundos, até que me tornei consciente da minha parcialidade, do meu racismo, e da minha suscetibilidade à propaganda. O Estado de Israel fica no Médio Oriente. Aquelas pessoas não têm a mesma aversão à guerra que eu tenho, e, considerar o contrário é tão errático como a interpretação da guerra na “Odisseia” por Chris Nolan, é anacrónico. Mais, aplicar esse critério aos vizinhos palestinianos, e não aos israelitas, porque são meus semelhantes, prova que o anacronismo já se maturou em racismo.
Mais, aplicar esse critério aos vizinhos palestinianos, e não aos israelitas, porque são meus semelhantes, prova que o anacronismo já se maturou em racismo.
Israel é um estado democrático, mas não é um estado ocidental, e não há participações na Eurovisão ou na Liga das Nações que mudem isso. É um país estrangeiro e, lá, as coisas são feitas de forma diferente.
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